Migalhas do capital
A Fogueira das Vaidades (Brian De Palma, 1990)
A fauna à mostra vive de migalhas (metáfora dada pela esposa do protagonista): há o agente de Wall Street que ganha intermediando negócios, o jornalista que fatura com sensacionalismo, a amante casada com um homem rico, o prefeito em busca de um branco preso para ganhar votos em um reduto de pessoas negras, um reverendo com intenções semelhantes, até mesmo uma mãe negra - naquele avanço da comédia ácida à mais perigosa piada do filme, talvez a que mais contribuiu para que fosse lançado à fogueira - que recolhe as lágrimas quando sente o cheiro do dinheiro, em um processo envolvendo o filho em coma.
O dono do bolo, aquele que esparrama as migalhas, nunca aparece em A Fogueira das Vaidades. Ouvimos apenas sua voz em cena rápida. Ele é o cliente do protagonista, o senhor do capital, alguém cujo poder o permite estar no jogo sem aparecer no jogo. Além de uma voz ele é um olhar, uma lente oval no interior de uma câmera na altura do teto, sobre os outros: é quem vê e não é visto. E se há um ser que escapa desse bonde de miséria moral é o juiz vivido por Morgan Freeman, a quem o diretor Brian De Palma, baseado em livro de Tom Wolfe, precisa dar um discurso final sobre justiça - no momento mais fraco do filme.
O que cai, o que sobe
A ideia central aqui não é nova: no mundo em que espetáculo e política misturam-se, alguém ascende ao topo à medida que outro tomba e desaparece. O protagonista é quem cairá, um lobo de Wall Street com bom coração, Sherman McCoy (Tom Hanks). Seus erros começam com um telefonema errado, em noite de chuva, quando, ao invés de ligar para a amante (Melanie Griffith), ligou para seu próprio apartamento e chamou a esposa (Kim Cattrall) pelo nome da outra. Esse erro explica o que vem pela frente. Sherman está no piloto automático, não tem mais controle sobre si mesmo, e a tal independência americana à qual aprendeu a se ajoelhar - a liberdade de vender tudo e comprar tudo, de dar escapulidas e cometer pecados e crimes e sair impune - cobrar-lhe-á um preço alto.
Em outra noite, quando o protagonista está com a amante a bordo de seu carro, ele pega uma saída errada na rodovia e termina no Bronx. O casal depara-se com uma rua lotada pela comunidade negra, que circula, diverte-se, arruma confusão, sem retoques nem maquiagem, ao que a amante questiona: “Onde estão todas as pessoas brancas?”. Na tentativa de deixar o bairro, Sherman desce do veículo para retirar um pneu do meio da rua, momento em que é abordado por dois rapazes negros. Ele tenta se esquivar e, ao ser intimidado, sua amante acelera o carro e, em marcha à ré, atropela um desses rapazes. O casal sente-se acossado em sua própria cidade, na parte que não conhece e domina. Bastou uma saída errada para que descobrissem os “vizinhos” do andar de baixo, os indesejados, em mal-estar que irriga o filme de De Palma; o componente racial impregna sua base.
A segunda personagem mais importante é o jornalista, aquele que sobe, um alcoólatra com fama de endividado chamado Peter Fallow (Bruce Willis). O tipo mole, de fala mansa, o abutre consciente que enxerga cada lance do jogo. Como boa parte da classe que representa, vive das bordas do poder (as migalhas), não raro convidado para entrar na festa (quando convém aos donos) e aplaudido por todos - todas as personagens que percorreram sua história, que ele odiou e que o odiaram - em sua consagração: a publicação da história sobre Sherman, o descartado. Porque o espetáculo exige festa e, ao centro dela, o novo peão investe-se da arte da escrita para denunciar o que há de mais podre naquele reino - começando sua narrativa pelo alto, pelos prédios metalizados, pelas grandes salas de negócio de Wall Street, pelas famílias aparentemente perfeitas, pelos amigos que aplaudem até um atirador prestes a perder o controle - porque estar armado, ali, é uma regra.
Estruturas
De Palma filma as estruturas: com frequência sua câmera é posta em posição inferior aos seres não para que fiquem gigantes, mas para que os tetos recobram-nos, para que cada detalhe de cimento, gesso, mármore, metal ou plástico fique saliente, para que essa estufa pressione seus crânios. Quando apresenta Fellow, no início, o cineasta faz um de seus famosos planos-sequência para nos dar o movimento do homem com e sem poder ao mesmo tempo, já que a invasão das estruturas - aqui pelos bastidores, da garagem ao elevador, passando por pontos de escuridão, ao lado de garçons e pratos fartos servidos com salmão - mostra tão somente o quanto ele é guiado. Os outros precisam agora suportar aquele “gênio” contador de histórias, precisam alimentá-lo, vesti-lo, fingir respeito e aplaudi-lo, porque é assim que se faz o sistema em questão: é preciso de alguém que escreva a “verdade” para que todos os atores dessa peça cômica sintam-se aliviados, talvez conscientes de que alguma nobreza moral tenha sobrado passado o escândalo. Sabemos que reside aí outra ironia: do escândalo extrai-se a “arte”, e com tudo se faz verniz.
Na cena em que Fallow acompanha uma entrevista do reverendo Bacon (John Hancock), De Palma lança mão de outro recurso famoso em sua obra: a tela dividida. Mostra, ao mesmo tempo, o que está à frente da câmera da tevê (mesclando seu ponto de vista ao do cinema) e o que está atrás dela. À frente, um depoimento que mistura um show de fé e protesto político; atrás, o olhar de Falow. O palco e os bastidores, a máquina por fora e por dentro, simultaneamente, aos quais se casa um diálogo travado pouco antes, quando o jornalista havia questionado o reverendo sobre honestidade. “Honestidade não tem nada a ver com isso. Isto é um espetáculo. Não acho que as duas coisas combinem”, afirma o líder religioso.
Honestidade não tem nada a ver com quase tudo o que esse filme ácido expõe, ou com o que ousa misturar. Nesse sentido, a personagem de Hanks é complexa. Por que De Palma insiste em nos fazer gostar dela? Por que em um filme em que a questão racial tem um peso tão grande, o apostador de Wall Street, o típico WASP endinheirado, sairá ileso, com seu sorriso que mistura malícia e certeza de consciência limpa? A Fogueira das Vaidades é uma comédia sobre um universo - os Estados Unidos - no qual rimos das coisas como elas são, não como gostaríamos que fossem. Rimos de um ecossistema que vive para sua manutenção, custe o que custar. Com toda a dificuldade que isso implica. Entre suas tantas representações incômodas, voltemos a Sherman, que não tem, em momento algum, seu trabalho condenado. Pelo contrário: a câmera faz dele um rei em seu salão de negócios. O verdadeiro problema é inexplicável: é o acidente, a ligação telefônica, a entrada para o bairro “errado”. É a natureza que retira o rei de seu controle e depois se expande, revelando cada ser que entra e sai de seu castelo fraturado, do qual ele próprio fugirá.
(The Bonfire of the Vanities, Brian De Palma, 1990)
Nota: ★★★☆☆



