Mergulho à vida
Enigma de uma Vida (Frank Perry, 1968)
Um dos motivos elencados por Billy Wilder para justificar o ódio de parte dos Estados Unidos a Hollywood, com seus excessos e ostentação, era a presença de piscinas na casa de seus artistas e chefões. “Piscinas fora e dentro de casa”, observa o diretor de Quanto Mais Quente Melhor (1998, p. 105). A piscina era - e ainda é - o item obrigatório dos boas-vidas, dos ricaços que gastavam milhões e davam festas caras em quintais que forjavam o Éden. A piscina como lugar hedônico, de diversão, de ócio, como possibilidade de purificação, natureza controlada, buraco revestido por concreto sob o reflexo do sol.
É a piscina - ou as piscinas - que atrai o protagonista de Enigma de uma Vida. Ned Merrill apresenta-se a nós como um invasor, alguém que entra sem bater em casas sem muro, em quintais verdes que rodeiam mansões que, como as de Hollywood, para uma classe rica ascendente ou não, precisam de uma piscina. Ned conhece aquelas casas, aquelas pessoas que, à beira da água, dizem muito e nada. Quem é ele? Saberemos apenas aos poucos seu drama e os motivos por trás do desafio que impõe a si mesmo: ao chegar à primeira piscina de amigos, após atravessar uma floresta caminhando entre animais, ele percebe, ao ver sua vizinhança do alto, que cada casa ou clube possui uma piscina e que, daquele ponto em diante, existe um traçado, um “rio” que o levará até sua casa.
Ned é interpretado por Burt Lancaster. Difícil imaginar outro ator para o papel. Com mais de 50 anos, Lancaster tem físico invejável. O filme explora seu movimento. Não há uma cena sequer em que use outra peça a mais que sua sunga escura. Está ao mesmo tempo desnudado - ou quase - e oculto sob camadas que somente aos poucos, em fases, ao passar pelas casas de seu desafio, serão retiradas. Ned tem um problema relacionado à família. Ele tem uma esposa que nunca aparece e fala das filhas pequenas com amor e carinho. Nunca as veremos. Ele pode ter sido abandonado e, ao longo do filme de Frank Perry, com roteiro de sua esposa Eleanor a partir da história de John Cheever, parece ocupar o papel do fracassado, o americano que perdeu tudo. Nada mais odioso, digno de expurgo, do que o fracassado no seio da riqueza, nessa sociedade de propaganda obcecada pela pureza (a personagem de Kim Hunter lembra que sua piscina tem 99,99% de água tratada) e ciente dos limites de suas propriedades, nessa falsa felicidade cravada entre bosques e estradas de terra.
Ned ama a vida. Não duvidamos. Mas se encontra preso a um estado de ilusão. Vive no passado, no que tinha de melhor e perdeu. Pode ter enlouquecido. Algumas personagens cobram-no ao longo dessa odisseia. O herói tem dívidas. Quando diz a uma senhora rica, em uma das mansões pela qual passa, que deseja comprar uma mesa no baile que ela está promovendo (chamado, não por acaso, de Safari), a mesma anota o pedido mas em seguida o risca da lista. Sabe que o protagonista não pode pagar mil dólares pelo convite.
O que ocorreu a Ned? O filme prefere as lacunas e isso o torna mais interessante mesmo com seus momentos frouxos, sua insistência nos closes de Lancaster, nos mergulhos em seus olhos, nos efeitos produzidos por imagens desfocadas e luzes do sol. Enigma de uma Vida tenta forçar nossa entrada à mente dessa personagem pouco acessível ao passo que investe no efeito físico da jornada. As cenas em câmera lenta, em que Ned e a jovem Janet Landgard saltam barreiras de hipismo, exalam o culto ao corpo, a busca aos detalhes em que a pele da adolescente - fixidez de juventude - é confrontada pela flacidez visível em Lancaster.
O homem que “perdeu” sua história precisa de um mapa, uma linha, uma narrativa, o estímulo para voltar para casa - em seu próprio delírio, uma busca incessante por tudo o que perdeu. Uma busca que termina no vazio. Ele cruza o mundo que criamos, o mundo com o qual sonhamos e que poucos materializaram. Porque, na crítica à sociedade americana - entre ricos com piscinas particulares e pessoas que frequentam e se apertam em piscinas públicas -, o derrotado que ainda insiste em inflar os pulmões tão somente volta a contemplar a aparência da passagem e a suposta purificação (na piscina privada e cheia d’água) ou a dificuldade de travessia (na vazia ou na pública abarrotada de gente). Como se essa sociedade de relaxamento, de espaços públicos mas privados, franqueasse ao homem sua última jornada, sua caminhada final, e como se esta refletisse parte considerável de sua vida.
O título brasileiro é correto: a vida como enigma. O roteiro de piscinas, a odisseia, o que criamos para saltar e talvez alcançar, limpo, o outro lado. O recomeço como eterno retorno, a negação da perda. Tudo isso atinge Ned Merrill. A cada casa, os amigos que preferem não dizer a verdade e aderem a tapinhas nas costas, os locais em que será lembrado como penetra ou devedor, a mansão da criança abandonada com sua piscina vazia (o próprio herói, que escolheu atravessar piscinas para vencer um trauma), o retorno da amante que lhe expõe cicatrizes, a sombra da família que não tem mais. A sociedade das festinhas, de certa permissividade, de modismo e dos objetos comprados dos falidos da vizinhança. Perry elege o homem forte - mas cada vez mais fraco e com frio à medida que o passado impõe-se - para projetar a consciência de derrota nos ambientes em que pulula o sonho americano.
Com o leitmotiv concreto das piscinas, o diretor Frank Perry faz deslizar os contornos de uma nova espécie de new american tragedy, onde os imperativos de competição, aliados ao artificialismo obrigatório de um viver imposto ao ser humano, levam a ser espirrado do meio ou a se afogar quem, a ele, não se adapta. (GRÜNEWALD, 1969, p. 2)
A certa altura desse mergulho à vida, Ned passa por uma casa e encontra tempo para beber champanhe entre convidados. Ao fundo, em uma parede, vemos um quadro com gaivotas pintadas. Não é um quadro qualquer. Sua moldura é branca, saliente, como se os animais estivessem presos a um cercado - diferentes, portanto, dos animais livres vistos na abertura. O quadro é coberto por vidro, um bom exemplo de natureza controlada, o que nos leva de volta às piscinas e à possível continuidade que, para Ned, elas indicam.
(The Swimmer, Frank Perry. Cores. Estados Unidos, 1968)
Referencial bibliográfico:
GRÜNEWALD, José Lino. Enigma de uma Vida. Correio da Manhã. Rio de Janeiro, Segundo caderno, 30 de mar. 1969, p. 2. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/docreader/DocReader.aspx?bib=089842_07&pagfis=100707. Acesso em: 09 de maio de 2026.
KARASEK, Hellmuth. Billy Wilder: e o resto é loucura. São Paulo: DBA Artes Gráficas, 1998.
Nota: ★★★☆☆



