Deus, um alienígena
Dia D (Steven Spielberg, 2026)
Ficções científicas são presas fáceis de símbolos religiosos. Em uma história como a de Dia D, com direção de Steven Spielberg e roteiro de David Koepp, os seres humanos ainda não evoluíram o suficiente para se livrar de armas e guerras, e ainda precisam aprender - ou se catequizar - com os evoluídos alienígenas entre nós, camuflados na natureza. Os alienígenas são bondosos, trazem mensagens importantes, querem ajudar - nada a ver com aqueles que o mesmo Spielberg retratou em seu arrebatador Guerra dos Mundos. Para o veterano diretor, precisamos traduzir o que o outro tem a dizer e compreender que há algo maior entre nós e sobre nós. Porque nós, os humanos, não vimos tudo. Devemos acreditar. Porque há lacunas que não podem ser preenchidas, porque a mensagem final, televisionada, a nós não será revelada. Spielberg parece acreditar mais na religião do que na ciência.
Diferentes linhas narrativas conduzem a uma só em Dia D, ao encontro dos rebeldes que querem revelar segredos escondidos por uma corporação privada com consentimento do governo. E a verdade nós sabemos: alienígenas existem e foram recebidos por aqui com hostilidade. Em cena, dois heróis estão destinados a se encontrar: o rebelde Daniel Kellner (Josh O’Connor), que carrega um dos três objetos alienígenas antes guardados em segurança máxima pela corporação vilã, e a jornalista e “mulher do tempo” Margaret Fairchild (Emily Blunt), que, após receber a visita de um pássaro vermelho em sua casa, começa a falar outras línguas, uma delas alienígena. Ela também descobre ter poderes paranormais, sendo capaz de ler a mente das pessoas e saber suas dores e traumas mais íntimos.
Descoberta do outro
A coexistência entre Deus e alienígenas bondosos é atrativa para Spielberg. A certa altura de seu filme, Jane (Eve Hewson), a namorada de Daniel, quer ter certeza de que isso é possível: ela toma um telefone celular e liga para um colégio de freiras no qual viveu; ela questiona a madre superiora sobra a possibilidade de Deus ter gerado vida fora da Terra. A madre, claro, é afirmativa e só faz ecoar a voz do próprio realizador em um filme estranho, bagunçado, rocambolesco, intencionado a depositar um punhado de pequenos mistérios e charadas em seu caminho para, mais tarde, devolver-nos ao conforto dessa certeza na voz da autoridade religiosa. Não há sequer o benefício da dúvida. É Jane que levanta a questão: será que os seres humanos estão prontos para descobrir a existência de vida fora da Terra? Spielberg não quer bancar o conflito e, à personagem, dá sua resposta: é justamente a descoberta do outro - existência antes apagada pelo poder, presença marcada por dores, torturas, experiências e morte - a chave para a empatia, para nossa descoberta da bondade, para, talvez, fazer o homem baixar suas armas. O filme trata de alienígenas, mas estes, se quisermos, podem ser trocados por imigrantes, palestinos, russos ou iranianos.
O Spielberg dos anos 2020 - não o dos tempos de Guerra dos Mundos e Munique - acredita na empatia. Os heróis de Dia D seguem a mesma linhagem de outros que criou em filmes de sua chamada fase infantil ou mágica, seres que olham para as estrelas e sonham com o que está além da Terra, que exalam bondade, personagens acabadas e que rapidamente ganham nossa confiança. Um blá-blá-blá inocente povoa boa parte desses filmes. Alguns sabem lidar com essa inocência e até a justificam, como E.T. - O Extraterrestre, sob o ponto de vista de uma criança. No caso de Contatos Imediatos do Terceiro Grau, seu mistério é mantido até os momentos finais; sua grandeza repousa em seu poder de nos fazer esperar.
Messias
Dia D é um filme “de mensagem”. O que tem de mais intrigante se reserva a representações e símbolos religiosos. Vale notar, por exemplo, os três objetos guardados pela corporação, dois deles furtados pelos rebeldes e por isso distribuídos entre diferentes pessoas. Por que três? Seria uma referência à Santíssima Trindade? Esses objetos têm poderes mágicos e, ao serem empunhados, permitem que seu portador desapareça ou ocupe o corpo de outra pessoa. Quando o vilão Noah Scanlon (Colin Firth) invade o corpo de Jane, ela pressiona na palma da mão um crucifixo até sangrar. Em montagem alternada, Spielberg alinha o objeto alienígena - na mão do vilão - ao objeto religioso - na mão da ex-freira. A perfuração de Jane - depois aumentada por facadas - remete ao estigma cristão.
Mais tarde, quando Daniel e Margaret estão juntos, os sinais religiosos são ainda mais fortes. Descobrimos que ambos, quando crianças, foram abduzidos por alienígenas. Eles foram escolhidos (como o Richard Dreyfuss de Contatos Imediatos). Ao invés de serem levados, eles ficaram por aqui, supostos representantes dos deuses alienígenas na Terra. No interior da nave, quando crianças, ambos tiveram suas cabeças cobertas por uma coroa formada pelos mesmos objetos furtados pelos rebeldes da corporação, agora em maior quantidade. Se antes parecia possível, agora a representação é óbvia: a coroa remete à coroa de espinhos de Cristo e os objetos que lhe dão forma são pequenos totens sagrados. As crianças, quando adultas, serão levadas a falar e traduzir o que os humanos não compreendem. Elas carregam as marcas (o poder introjetado nos olhos pela coroa) de Deus (o alienígena) na Terra. Elas terão de viver uma jornada de descobrimento para retornar para casa e, nessa jornada, combater a corporação americana que agora se traveste de Império Romano. Daniel tem o dom da tradução, da matemática, mas é Margaret que carrega os sinais de Cristo em seu poder de enxergar o interior dos outros, de se colocar no lugar da pessoa amada por quem a encara, de distribuir, em sua imagem, o amor que seus perseguidores não podem negar. Nada mais simbólico: é como se os alienígenas, de forma consciente, tivessem dado a coroa de espinhos aos dois filhos escolhidos (homem e mulher, o binarismo que forja a família cristã), sabendo de todos os problemas que eles enfrentariam pelo caminho, até o dia da revelação. Em suma, a ideia de que o Deus de Spielberg é um alienígena é mais que evidente.
Na luta para revelar a verdade, os rebeldes precisam de uma rede de televisão para transmitir as imagens com que sonharam, por décadas, os fanáticos por teorias da conspiração: naves, alienígenas machucados, laboratórios secretos, toda a parafernália descendente da Guerra Fria. Se eles já tinham essas imagens guardadas em HDs e podiam revelá-las de outra forma, como pela internet, por que não o fizeram? Spielberg confirma outra vez sua inocência: ele crê na televisão - a mídia de massa - como canalizadora da verdade. Em sua jornada, é preciso esperar pelas descobertas de sua messias, pelo encontro entre o tradutor e a mensageira, entre o cérebro Daniel e o coração Margaret. Só assim a revelação pode ser dada. Com a televisão, o lugar do espetáculo por excelência, vemos e cremos, à medida que a palavra dá lugar à imagem, o pergaminho à câmera.
(Disclosure Day, Steven Spielberg, 2026)
Nota: ★★☆☆☆



