Corpos embaraçados
O Riso e a Faca (Pedro Pinho, 2025)
Nos dias ou meses em que vive na Guiné-Bissau, o engenheiro Sérgio não consegue não se deixar contaminar pelos locais. Vai ao país a trabalho - contratado para produzir um relatório sobre uma área onde será construída uma estrada - e não diz com clareza suas intenções. É uma personagem curiosa, observadora, homem honesto que, passado algum tempo, não gera mais suspeitas no espectador. É quem nos leva à força de outras personagens, força que ele sente, que o chicoteia, que com frequência o embaraça, e da qual igualmente não pode se desprender: aos outros corpos, às outras músicas, às novas luzes, à variedade sexual que Sérgio está disposto a viver sem recusas em um filme difícil de definir.
Apesar do título, O Riso e a Faca não se detém entre extremos. Mais que uma história sobre quem pertence ou não a um país com graves problemas sociais, mais que um filme entre o deserto, a floresta e a cidade, o diretor Pedro Pinho prefere um filme de choque, que vai das aparentes diferenças às semelhanças naturais. Sérgio (Sérgio Coragem) está disposto a uma travessia difícil: foi de Portugal à Guiné-Bissau dirigindo um carro. No início, ao ser parado por um guarda de fronteira, presenteia o mesmo com um livro para ter sua passagem liberada. Dá ao desconhecido o que pode prendê-lo (a cultura do outro) à medida que deixa para trás um pedaço do que é seu, um livro, e pede para continuar naquele deserto. Até seu carro quebrar e se ver a pé; até, enfim, chegar à cidade do trabalho, à ONG que o contratou, às pessoas que não conhece e precisa conhecer por obrigação, como os membros da elite local.
Irrompe no caminho, na cidade de trânsito caótico, a bela Diára (Cleo Diára). Ela foge de outro homem, um cobrador. Usa peruca loira, insiste no item típico às mulheres de natureza dúbia - ou dupla - de filmes anteriores, alguns clássicos, como as damas do noir e a Brigitte Lin de Amores Expressos. Não sabemos o que pensam, se amam ou apenas usam os homens em questão, se sentem tesão quando estão com eles. No caso de Diára, prendemo-nos a um pequeno acessório, à joia em seu nariz, objeto metálico que pressiona sua carne, que marca seu rosto e tanto combina com essa mulher empoderada. Ao lado dela está outro ser liberto, o brasileiro Gui (Jonathan Guilherme), que foi para Guiné-Bissau compreender suas raízes. Sérgio deixa-se levar por ambos e ambos combinam de lançá-lo a um jogo de sedução que envolve noites de dança, corpos colados sob calor escaldante.
O protagonista não consegue deixar de se envolver nem com essas pessoas nem com outros problemas daquela região. Ele recusa-se a deixar que seu trabalho seja baseado somente em planilhas e no estudo do solo. Ao se lançar ao desconhecido, passa a ouvir que vive ali, a andar por vilarejos pobres, por barracas de gente que não sabe como chegar viva ao fim do mês. Ele toma partido e descobre que não pode ir fundo o suficiente. Quando resolve dar água a um africano à beira da estrada, contra as indicações dos homens da grande empresa de engenharia, é repreendido; enquanto encara outra cultura, sente-se fora, um estranho cercado por perguntas que o pegam desprevenido, como no momento em que uma mulher pergunta se é verdade que, na Europa, as pessoas usam água tratada em vasos sanitários, o que Sérgio confirma com alguma vergonha. A questão colonial é inescapável mesmo que Pinho, na maior parte do tempo, não esteja interessado em generalizações fáceis; para um português, estar ali é tropeçar em pequenos detalhes ou em mamutes que exumam o passado.
Ser um europeu, ali, é perceber não ser parte, ou a parte ideal de um jogo que ao mesmo tempo repele (na dimensão política) e aceita (no desejo sexual). O que resta a Sérgio é o que ele não consegue controlar: seu corpo, seu sexo, esse produtor de choque que talvez seja capaz de aparar arestas entre lados. Não por acaso, Diára apela ao sexo para dominá-lo. Certa noite, ela convida-o a observá-la com outro homem à cama. Na cena seguinte, lá está ela, entregue ao outro, conhecido, desconhecido, não se sabe. Primeiro o europeu olha, depois se masturba olhando. Pinho não economiza, estende e se revela um autor raro ao filmar o sexo sem objetificação do corpo feminino, sem nos negar os toques e detalhes daqueles seres entrelaçados. Usei aqui o verbo “embaraçar” para tentar definir a aventura de Sérgio; resume e bem essa cena, ao passo que Diára só aceita o protagonista se for para viver o sexo a três, enquanto ele - o europeu, salienta-se - é o passivo da relação e ela, sem dúvida, pode encontrar o gozo ideal entre os dois corpos que domina.
Em filme anterior de Pinho, o belo A Fábrica de Nada, a luta política anula o sexo, ainda em seu início, quando um operário é chamado a ir à fábrica e deixa sua mulher sozinha. O Riso e a Faca não aceita esse rompimento: nossa compreensão da personagem central e de sua tentativa de entrega não é possível senão pelo sexo. É o ponto em que o visitante é flagrado, existe, sinal de que pode tentar ser parte daquilo sem ter que olhar àquilo - a área de uma grande obra, o espaço no qual se promete progresso - do alto. Mas ainda assim não o agarramos; ainda assim está distante. É o sexo, consumido ou na expressão do desejo, na dança ou no olhar perdido, que nos dá o encontro, ainda que embaraçado.
(Idem, Pedro Pinho. Cores. França, Portugal, Brasil, Romênia, 2025)
Nota: ★★★★☆



