Palavras de cinema

Palavras de cinema

Barry Lyndon (1975)

Quando erra, Barry acerta; quando parece ter tudo nas mãos, todo um plano traçado com a meticulosidade do jogador de cartas que gosta da trapaça, não pode contar com o destino a seu favor

Avatar de Rafael Amaral
Rafael Amaral
dez 06, 2025
∙ Pago

Em seu primeiro duelo de armas, Barry Lyndon expressa com clareza sua vontade de viver. Aquela é uma situação absurda, alguém pode sair morto. Ele não queria estar ali, ainda que a honra e o orgulho tenham falado mais alto. Como um garoto sem saber em que jogo meteu-se, ele espera o pior. No segundo duelo, anos mais tarde, o protagonista não poderá ceder à mesma expressão: a essa altura, perto do fim do filme Stanley Kubrick, ele perdeu quase tudo. A expressão de Ryan O’Neal transmite a certeza da morte, a morte em vida.

A história de ascensão e queda de um homem com muitas faces não nos deixa ver com clareza nenhuma delas. A ideia de Kubrick é sustentar esse mistério até o fim, compartilhar apenas o necessário. Barry é simples, justo e heroico; Barry é um jogador, um enganador, alguém que se deixou corromper após viver a guerra na pele, como se, tão perto da morte, resolvesse apostar na vida. Esse estranho protagonista passa do idealista ao cínico: vemos em seu rosto, quando ele e seu povoado assistem ao desfile dos militares, ainda no início, o desejo de fazer parte da força, de viver as glórias que ainda não colheu.

Barry sempre entra pela porta dos fundos e de alguma forma prospera. Assim é a primeira parte. Na segunda, ele enfim consegue entrar pela porta da frente. Ele vence ao ganhar o coração de uma mulher que não ama e nunca amará; diz-nos o suficiente com seu avanço à classe dominante da época, e o filme de Kubrick simboliza, a partir desse ponto, a impossibilidade do homem de classe baixa compor a alta. Quando erra, Barry acerta; quando parece ter tudo nas mãos, todo um plano traçado com a meticulosidade do jogador de cartas que gosta da trapaça, não pode contar com o destino a seu favor.

Avatar de User

Continue lendo este post gratuitamente, cortesia de Rafael Amaral.

Ou adquirir uma assinatura paga.
© 2026 Rafael Amaral · Privacidade ∙ Termos ∙ Aviso de coleta
Comece seu SubstackObtenha o App
Substack é o lar da grande cultura